12.5.2007
A apresentação do Cineclube Equipe no seminário Panorama do Cinema Mundial, no último fim de semana na Reserva Cultural, teve certa repercussão: muitos elogios. Mas o principal desdobramento dessa pesquisa é o do próprio grupo que estudou o cinema tailandês. A participação no Panorama organizado por Rô Caetano foi muito importante para voltarmos nossa atenção ao cinema contemporâneo, com sua complexidade e diversidade. Assistimos a muitos filmes estranhos, curiosos, interessantes. Filmes que talvez nunca teríamos acesso, não fosse o esforço de descobrir o cinema da Tailândia, país tão diferente do nosso, mas cujo cinema sofre problemas semelhantes aos do brasileiro, como a falta de legitimidade dentro do próprio país.
Para entender o cinema tailandês contemporâneo, é preciso conhecer sua história. E foi por aí que começamos nossa palestra.
A Tailândia passou pela história do cinema como a maior parte dos outros países: primeira exibição pública no fim do século XIX, primeiros filmes tailandeses na década de 1920, filmes sonoros a partir dos anos 30 etc. Nos anos 1970, o envolvimento político estudantil criou uma onda de filmes sobre questões sociais, em sintonia com os movimentos contraculturais do resto do mundo. Durante as décadas de 1980 e 1990, a Tailândia assistiu a um bum de filmes adolescentes, as comédias românticas. Até então, o cinema era visto apenas como entretenimento para as camadas rurais, mais populares da Tailândia. Em 1997, a Crise Financeira Asiática afetou seu cinema e, logo no mesmo ano, diretores publicitários como Pen-Ek Ratanaruang e Wisit Sasanatieng perceberam que era preciso fazer filmes mais "artísticos". Os filmes que realizaram levaram ao desenvolvimento de festivais de cinema e arte no país. Outros realizadores, como Apichatpong Weerasethakul - o cineasta tailandês mais conhecido aqui no Brasil -, levaram a Tailândia a participar de festivais internacionais, como Cannes e o Festival de Berlim. A partir daí, é possível observar o que se chama de "Novo Cinema Tailandês", marcado por três linhas distintas: a dos diretores publicitários, que levaram o cinema tailandês para festivais internacionais; a dos gêneros tradicionais (terror, ação, comédia), que atraem a maior parte da população do país; a dos independentes, como Apichatpong.
Assistindo aos filmes e estudando a respeito (principalmente a partir dos textos da tailandesa Anchalee Chaiworaporn), percebemos uma característica interessante dessa cinematografia: a contradição. Essa idéia de opostos está presente, principalmente, no conteúdo dos filmes, que colocam a vida rural, de heróis ligados aos valores tradicionais e à cultura como o bem, em detrimento da vida urbana, normalmente ligada ao tráfico de drogas, prostituição etc. Percebemos também uma contradição entre a temática e a linguagem dos filmes, quando retratam heróis lutando pela preservação de sua cultura em reconstituições histórias, por exemplo, em uma linguagem hollywoodiana, a que estamos acostumados a ver nos filmes norte-americanos.
Para finalizar, comparamos os números tailandeses aos dos EUA e aos do Brasil: são lançados cerca de 44 filmes tailandeses por ano, o que corresponde a 36% do que é exibido no país - uma alta porcentagem -, em apenas 645 salas, quase 1/4 do número brasileiro.
Para pensar o futuro do cinema tailandês, falamos sobre um artigo recente de Apichatpong Weerasethakul sobre um seminário realizado pelo governo acerca da discussão do novo Ato sobre Filme e Vídeo, que substituirá o de 1930, que vigora até hoje. Ele trata da questão da censura, que é feita pela polícia e, segundo ele, se continuar assim, os tailandeses nunca terão liberdade de expressão artística. O principal problema do novo ato é uma das cláusulas, que diz ser proibido fazer filmes que firam a ordem social e decência moral ou que possam ter impacto sobre a segurança e orgulho da nação. Ele chama atenção para a falta de definição desses termos, que sempre causaram conflitos entre artistas e autoridades.
Em coerência com o trabalho das sessões do Cineclube Equipe, levamos para a palestra folhetos informativos que fizemos (com a tradução de "Breve História do Cinema Tailandês" de Anchalee Chaiworaporn, que pode ser lido na íntegra, em inglês, no site fipresci.org, trecho de "Novo Cinema Tailandês", no original neste site, outros textos e filmografia e bibliografia indicada) e lemos um trecho com o público, como é de costume. Além disso, lançamos uma questão sobre o cinema tailandês, mas que também poderia permear todo o Panorama: A cinematografia de um país deve representar sua cultura, seu povo? Qual a relação dos filmes com seus países de origem nesse sentido?
Para quem quiser saber mais sobre o cinema tailandês, recomendamos: Cinema Thai, Thai Film Foundation, Criticine, Kick the Machine, cinema tailandês na Wikipedia.
Em janeiro, as sessões "Cineclube" do HSBC Belas Artes serão sobre o Cinema Asiático. Uma semana será dedicada ao cinema tailandês, com a exibição de "Iron Ladies" (Youngyooth Thongkongthun, 2000).
Alguns dos palestrantes e organizadores do Panorama do Cinema Mundial, na Reserva Cultural
Nina, do Cineclube Equipe, é a segunda sentada da esquerda para a direita e Kim está de camisa xadrez no centro
Cineclube Equipe.
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12.3.2007
Ravi Santana, Nina Di Giacomo, Kim Doria e Júlia Polý durante a palestra
do Cineclube Equipe sobre o cinema tailandês na Reserva Cultural
O seminário Panorama do Cinema Mundial, que aconteceu lá na Reserva Cultural nesse fim-de-semana, organizado por Rô Caetano, foi muito interessante, principalmente pelos países menos conhecidos por seu cinema, como Turquia, Nigéria, Romênia, Irã... É interessante ver como todos os seminaristas falaram do cinema norte-americano. É impossível tratar do Cinema Mundial sem pelo menos citar a hegemonia dos EUA.
Foi muito produtivo e divertido. Esta semana escreveremos algo mais detalhado sobre as palestras.
O crítico de cinema do jornal O Estado de S.Paulo e responsável pelo cinema da França no seminário, Luiz Zanin, destacou a palestra do Cineclube Equipe em seu blog:
O nível dos painéis foi ótimo, aprendi muito durante o seminário. Gostaria de destacar o grupo de alunos do Colégio Equipe*, que fez uma ótima comunicação sobre o cinema tailandês. Prova de que o nível desse colégio, onde estudei por um ano quando era apenas cursinho para vestibular, continua de primeira. Parabéns a eles.
Zanin postou, na íntegra, o texto da sua ótima apresentação sobre o cinema francês. Veja em seu blog.
*O grupo organizador do Cineclube Equipe é, na verdade, composto por alunos e ex-alunos do Colégio Equipe e membros da comunidade equipana. Somos parte do Núcleo de Cultura do Instituto Equipe Cultura e Cidadania, OSCIP parceira ao Colégio.
Cineclube Equipe.
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